LARS VON TRIER DESCE AO INFERNO PARA RODAR ‘THE HOUSE THAT JACK BUILT’

Ilustrada-22-03-17

Por Guilherme Genestreti, enviado a Dalsland (Suécia)

Em “A Divina Comédia”, Dante precisou cruzar nove círculos do inferno antes de ascender ao paraíso. Assim como o poeta florentino, o cineasta dinamarquês Lars von Trier também vaga por seus próprios vales sombrios para encontrar alguma redenção desde que disse, em 2011, “compreender” Hitler e ser banido do Festival de Cannes. Foi na obra dantesca que o controverso diretor encontrou os insumos para criar “The House that Jack Built” (a casa que Jack construiu), filme sobre a trajetória de um serial killer com o qual ele espera retornar a Cannes. “Lars precisa de muita neve”, diz Louise Vesth, produtora que achou gelo suficiente em Dalsland, cidadezinha sueca de 50 mil habitantes, um punhado de pinheiros esquálidos e atmosfera lúgubre a 430 km de Estocolmo. No caminho de ônibus para o set do filme, o grupo de jornalistas do qual a reportagem fez parte indagava o que levou o dinamarquês a escolher um local tão isolado. “Há um ar de ameaça silenciosa espreitando as casas, não?”, opinou uma repórter sueca. Lars von Trier anda lentamente, olha para baixo e usa a mão esquerda para segurar a tremedeira da direita quando adentra o local da entrevista à imprensa: uma casa que serve de base para as filmagens, próxima de um galpão onde acabara de gravar. É a primeira entrevista coletiva do diretor desde 2011. O alcoolismo, que ele largou “só em parte”, vem à tona logo no início. “Estou me esforçando para não beber tanto”, diz. “Infelizmente não surgiu nenhuma droga no caminho.” Em outra ocasião, havia afirmado que sem o álcool sofre de bloqueio criativo.

Von Trier vê semelhanças entre seu ofício como artista e a matança em série: “Você tem de ser cínico nos dois casos”. No longa, cada assassinato cometido por Jack é descrito como uma obra de arte, uma arquitetura de homicídios que aparece impressa no título do longa. “Por que decidi fazer um filme de gênero? Não sei. Aos 61, tenho o direito de dizer que não faço ideia de porra nenhuma”, diz o cineasta. “Todas as mulheres com quem me envolvi eram loucas por serial killers. Deve ter algo a ver comigo”, brinca. Matt Dillon (“Crash”) é quem faz Jack. Entre uma morte e outra, o filme encadeia um diálogo entre o protagonista e Verge (Bruno Ganz) –uma versão moderna de Virgílio, o poeta que conduz Dante pelas entranhas afuniladas do inferno. Na cena que a reportagem acompanhou, Uma Thurman interpreta uma mulher perdida na nevasca que se tornará vítima do assassino em série. A câmera na mão ziguezagueia entre os atores, focando e desfocando seus rostos –traço estético típico dos filmes do diretor dinamarquês. Orçada em € 8,7 milhões (R$ 28,7 milhões), a produção terá uma boa dose de efeitos visuais –”Não posso dizer como serão”, afirma Von Trier. Em um comunicado enviado a distribuidores internacionais, o cineasta escreve que imagina um epílogo “poeticamente grandioso”, uma mistura entre “imagens abstratas da mente e realismo”.

Os recônditos do inferno não são estranhos ao diretor dinamarquês, que purgou a sua própria depressão numa trilogia temática: o pesar (em “Anticristo”), a letargia (em “Melancolia”) e a autodestruição (em “Ninfomaníaca”). Sua ansiedade o impede de entrar em aviões: Von Trier nunca pisou nos Estados Unidos, cuja cultura ele destrinchou cinematograficamente, seja pelo viés da vida em comunidade (no brechtiano “Dogville”) ou dos resquícios da escravidão (“Manderlay”). “Melancolia” foi o longa que lhe abriu outras portas infernais: foi durante a divulgação do filme, no Festival de Cannes, em 2011, que o cineasta fez piada com nazismo: “Hitler fez coisas erradas, mas eu consigo vê-lo sentado ali em seu bunker no fim.” A mostra francesa, que vinha servindo de vitrine ao cineasta desde 1991, o baniu, e a distribuidoras argentina DC, que venderia o filme no Cone Sul (exceto no Brasil), rescindiu o contrato de pronto. Três anos depois, para apresentar “Ninfomaníaca” no Festival de Berlim, Von Trier não participou da entrevista à imprensa, mas posou com uma camiseta com os dizeres “Persona non grata”.

Cannes não sai do horizonte de Von Trier. Para filmar “The House that Jack Built”, ele voltou a Dalsland, a mesma cidade gelada onde ele rodou cenas de “Dançando no Escuro”, filme que lhe valeu a Palma de Ouro, em 2000. Nesse excêntrico musical, a cantora Björk interpreta uma operária imigrante nos EUA que está em vias de ficar cega e luta para que o filho não padeça do mesmo mal. “Dançando no Escuro” foi o primeiro longa de Von Trier depois de ele abandonar os ditames do Dogma 95, manifesto radical do qual foi um dos expoentes e que pregava um “voto de castidade” no cinema, sem artificialismos como trilha ou filtros ópticos. Corta para 2017. Von Trier insiste em fazer piada com nazismo: “Vocês sabiam que Bruno Ganz, que está no meu filme, já interpretou Hitler?”, pergunta, citando o longa “A Queda” (2004).

Von Trier cogita lançar seu filme em maio de 2018, a tempo de tentar vaga em Cannes. À reportagem a organização confirma que o cineasta poderá se candidatar se quiser. Mesmo aconselhado a deixar toda a esperança para trás quando entrava no inferno, Dante chegou ao paraíso.

 

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